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Um pouco da história do vinho.

Até que ponto a história corresponde à realidade e em que momento o homem começa a preencher as lacunas trabalhando com a imaginação os fragmentos de fatos narrados por seus antepassados? Por Aguinaldo Záckia Albert e Ennio Federico.

Portugal Vinho do blog | 2015-09-25 17:15:31


Quando se fala de história, quanto mais remoto o período, mais nebulosos se tornam os acontecimentos, mas acho que podemos dizer que a história do vinho se confunde com a do homem civilizado.
A civilização nasce no período Neolítico, com a agricultura, tão logo os primeiros nômades que semearam grãos são obrigados a se instalar para esperar a colheita. Como a videira necessita de pelo menos quatro anos para dar seus frutos, o período em que ela começa a ser cultivada corresponde à época de transição social, quando os homens aos poucos abandonam a vida nômade para se fixar em determinados sítios, pois de outra forma não estariam presentes para colher a uva quando a videira começasse a produzir.

O vinho, sem dúvida, originou-se no Oriente, na região do Cáucaso onde hoje se encontram a Geórgia e a Armênia, cerca de 7 000 anos a.C., espalhando-se depois para a Mesopotâmia, Síria, Palestina e Egito. Via Chipre e Creta, as parreiras conheceram a Europa; primeiro a Grécia, onde a vitivinicultura conheceu grande desenvolvimento, cabendo aos gregos difundi-la por todo o Mediterrâneo, depois pela Itália, pela França e por outros países mais.
Como tantas outras descobertas que o acaso permitiu ao homem, o vinho provavelmente foi fruto do esquecimento de algumas uvas em um recipiente, resultando numa fermentação natural e fazendo com que seu doce líquido se transformasse em álcool, álcool vínico. E os homens, mesmo sem entender como tinha surgido, perceberam que isso era bom e passaram a bebê-lo.

À medida que a inteligência do homem se desenvolve, ele começa a perceber a existência de fenômenos sobre os quais não tem controle e, sem saber explicá-los, atribui sua ocorrência a entidades superiores, os deuses. Para agradá-los, criam rituais de celebração, e o vinho segue os passos das diversas religiões que vão se formando e se transformando no correr da história.

Segundo a tradição judaica transcrita no Pentateuco, a parreira teria sido a primeira planta cultivada por Noé depois do Dilúvio, e em seguida há a descrição de como ele bebeu o vinho e apareceu nu em sua tenda, numa alusão à bebedeira tomada por personagem tão ilustre. Coincidência ou não, a arca de Noé parou nas "montanhas do Ararat", num ponto entre a Turquia e Armênia atuais, reforçando a teoria que o vinho surgiu no Cáucaso, mesmo que se considere lenda a história de Noé.

Anterior ao Livro de Gênesis, a epopéia babilônica de Gilgamesh, escrita por volta de 1 800 a.C., mas se referindo a uma época bem mais remota, conta a história de Upnapishtim, que seria a versão original da história do Dilúvio, só que esse herói não faz vinho. A citação à bebida está num outro trecho do poema em que se relata a entrada de Gilgamesh nos domínios do sol, onde ele descobre a existência de um vinho extraído de um vinhedo encantado que lhe garantiria a imortalidade, se ele conseguisse bebê-lo.

Talvez a lenda sobre o vinho que mais nos interesse seja a persa, relatada por Omar Khayyam Jamsheed era um rei persa em cuja corte as uvas eram conservadas em jarros para que pudessem ser comidas fora da estação. Certa ocasião, um dos jarros começou a exalar um cheiro estranho, e as uvas nele contidas espumavam, por isso o jarro foi posto de lado para que ninguém se envenenasse.

Uma jovem do harém, sofrendo dores de cabeça terríveis, resolveu suicidar-se bebendo o "veneno", só que, em vez de provocar sua morte, a beberagem lhe trouxe paz e um sono que lhe devolveu as forças. O rei, depois de ouvir a história da jovem, mandou que se fizesse uma quantidade maior de vinho, para que ele e sua corte pudessem tomá-lo.

No Egito, Osíris, o deus da vida após a morte, era o patrono da vinha, e os egípcios não só bebiam o vinho como o usavam para purificar o altar e a vítima nos sacrifícios religiosos. Além disso, jarras de vinho faziam parte dos tesouros
que deveriam acompanhar as múmias reais em sua última viagem. Na tumba de Tutancâmon foram encontradas 36 ânforas, sendo que em 33 delas consta o nome do vinhateiro-chefe e 26 são "rotuladas", trazendo informações diversas, como a origem, a idade ou a classificação ("doces", "novos" ou "de ótima qualidade").

Na Grécia, Dioniso, ou Dionísio como querem alguns, o deus do vinho, da colheita e da fertilidade, a princípio foi repudiado pela aristocracia, que não considerava a embriaguez dentro de seus padrões estéticos, mas acabou integrado ao panteão dos deuses gregos, tal sua importância junto ao povo. O ritual dionisíaco, muitas vezes agitado pelo consumo excessivo do vinho, tinha um aspecto mais grandioso em determinadas épocas do ano quando se fazia a representação da vida do deus, o que, com o passar do tempo, deu origem ao teatro grego.

A arte na cerâmica foi outro ramo que ganhou vitalidade com o vinho, já que ele era conservado e transportado em ânforas, valorizadas pelo formato e pela pintura aplicada a elas.
Quanto ao valor gustativo do vinho grego da época, temos nossas dúvidas... Pelo que se deduz, ele era um rosado excessivamente doce, provavelmente com um ligeiro toque de resina, tão concentrado que precisava ser agitado antes de ser bebido.

"Vita vinum est" (Vinho é vida) são as palavras que Petrônio põe na boca de um dos personagens de sua obra Satyricon. Tanto para os pobres quanto para os ricos, o vinho era um gênero de primeira necessidade em Roma. O vinho romano já conta com propriedades excepcionais para sua conservação, e é guardado não só em ânforas, mas também em tonéis e garrafas. Na época de Augusto (27 a.C. a 14 d. C.) ainda se apreciava o vinho doce e forte, muitas vezes submetido a um processo de "cozimento" como o nosso atual Madeira. Acrescentava-se muitas vezes água salgada durante a fermentação para realçar a maciez do vinho e para evitar o gosto de bolor. Já por volta de 169 d.C., os vinhos especiais continuavam sendo os brancos, mas bebia-se vinho tinto no dia-a-dia romano.

Dioniso é adotado pelos romanos com o nome de Baco (como Dioniso era conhecido na Lídia). As bacanais eram as celebrações de seu culto e tinham um caráter orgíaco e delirante, marcado principalmente pelas bacantes que, vestidas apenas com peles de leão, executavam danças frenéticas. Quanto às demais mulheres, a informação que temos é que, nos primórdios de Roma, eram proibidas de beber vinho porque a produção era escassa, havendo a permissão de que fossem beijadas pelos guardiões para verificar se haviam ou não transgredido a lei...

Na tradição cristã, o vinho assume um papel mais sóbrio e metafórico, passando a representar o sangue do Cristo, filho de Deus, no decorrer da celebração da missa. Por isso, as vinhas começam a ser cultivadas com finalidades litúrgicas nos monastérios e abadias que, com o tempo, se tornam grandes produtores de bons vinhos.

Paralelamente ao papel que representou e representa na mesa, na religião e na economia dos povos, o vinho é hoje indicado pelos médicos como uma bebida salutar, o que não é nenhuma novidade, pois Dioscórides, o pai da farmacologia, no século I da nossa era, e Hipócrates de Cós, o pai da medicina, quatro séculos antes, já mencionavam seu papel como medicamento.

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